Para Hugueney, os desafios chineses são grandes e o Brasil precisa ficar atento a eles nos próximos cinco anos. O gigante asiático precisa reduzir o peso da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no Produto Interno Bruto (PIB), da ordem de 45%; diminuir o endividamento de províncias no interior do país; desestatizar o sistema financeiro; e minimizar sua dependência do petróleo importado - o país compra no exterior 60% do óleo que consume. Sem falar nas imensas demandas sociais em torno do processo de urbanização do país - ainda moram no campo 600 milhões de chineses - e que passam pela implementação de um sistema de saúde.

Para complicar o cenário, Hu-gueney diz que a China não é mais o baluarte da competitividade. Crescer a taxas superiores a 10% ao ano já é impossível. O próprio governo já estabeleceu metas menores, de 7%, para ganhar fôlego e implementar as reformas. Muitos dos fabricantes de produtos de baixo valor agregado se deslocaram para nações próximas e mais pobres, como Bangladesh, Vietnã e Cambodja. O custo energético tende a crescer com a insustentável matriz
baseada no carvão. Por fim, o gás de folhelho norte-americano, extremamente barato, aumenta a competitividade de países próximos aos Estados Unidos.

"O desafio é gigantesco", diz Hugueney. No entanto, com tantas mudanças, as oportunidades agora se concentram no consumo interno e na melhoria dos serviços públicos. "São nessas mudanças que os brasileiros precisam estar atentos", avalia.

Hugueney diz que com o crescimento da demanda familiar, a China terá poucos mercados de quem comprar tantos alimentos. "O Brasil é um dos únicos países que possuem capacidade de resposta no agronegócio".

No país asiático, restam apenas 10% de terra a ser explorada para a agricultura e pecuária. Os 90% são compostos por áreas urbanas, rurais já ocupadas, ou pelo deserto de Gobi, que cresce e avança sobre Pequim. "O agronegóciobrasi-leiro não deve depender da China, mas sim fazer dela sua prioridade número um", diz.

Com o consumo crescente, criam-se oportunidades para agregar valor aos alimentos produzidos no Brasil. Isto deve ser a saída para reduzir o peso das commo-dities na pauta exportadora nacional. "Há uma demanda sem fim de minério, soja, milho, celulose. Isso é extraordinário para o Brasil. Porém, é necessária uma agenda com diretrizes específicas para diversificar as exportações".

O governo brasileiro também precisa fazer seu dever de casa. Parte das dificuldades encontradas por empresários brasileiros para exportar tem relação com diversas barreiras, comerciais e burocráticas, criadas pelo parceiro comercial. Diversos países emergentes sofrem com restrições e amargam enormes déficits no comércio bilateral. México e Índia, que não possuem a mesma condição brasileira para fornecer alimentos, são dois exemplos claros da falta de "complementaridade na balança comercial", na visão do embaixador. Para abrir mercados, à força se for preciso, o país precisa se valer de seu poder político.

Com o intuito de prover o governo de informações sobre essas restrições, o Conselho Empresarial Brasil-China está desenvolvendo um estudo sobre barreiras no comércio e nos investimentos. Quer saber quais entraves específicos afetam as relações entre os países. "Se o produto não entra, será que falta esforço de promoção ou são barreiras, licenças, ou outras burocracias que impedem? Todos os outros grandes parceiros fazem esse exercício e o Brasil também precisa fazer", pontua Hugueney.

Fonte: Brasil Econômico - publicado em 05/08/2013


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