Os jovens gostaram do programa, mas disseram que iriam votar em Narendra Modi e no seu partido, o Bharatiya Janata (BJP), nas eleições nacionais da semana passada porque queriam um futuro com empregos e crescimento econômico - e não mais doações do governo.

"Queremos Modi. O que ele fez pelo [Estado indiano de] Gujarat, ele deve fazer por nós", disse Suraj Pal Singh, operário de uma companhia de energia.

Na sexta-feira, o Partido do Congresso foi destronado de forma notável pelo ressurgente BJP e seu líder Modi, um político carismático com raízes no nacionalismo hindu e uma agenda de políticas pró-mercado.

A vitória esmagadora de Modi marca uma virada na história pós-colonial da maior democracia do mundo. Durante a maioria dos 67 anos desde que a Índia conquistou sua independência do Reino Unido, a trajetória do país vem sendo traçada pela família de Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da nação. Depois da morte de Nehru, sua filha, Indira Gandhi, assumiu o comando do Partido do Congresso e seus filhos, netos e outros membros da família, com algumas interrupções, exerceram o poder desde então.

Agora, terminadas as eleições, o BJP está a caminho de ganhar 282 das 545 cadeiras na câmara baixa do Parlamento indiano, segundo a Comissão Eleitoral - a primeira vez desde 1984 que qualquer partido obtém maioria absoluta no legislativo. O Partido do Congresso deve ficar somente com 44 cadeiras, de longe seu pior resultado numa eleição, afirmou a Comissão Eleitoral, enquanto os votos eram contados.

Filho de um vendedor de chá, Modi galgou a hierarquia do movimento nacionalista hindu antes de se tornar governador de Gujarat, um Estado ao sul do Rajastão. Sua carreira política foi manchada pelos conflitos religiosos que irromperam no Estado em 2002 e deixaram mais de 1.000 mortos, a maioria muçulmanos. Críticos o acusam de não ter feito o necessário para estancar a violência, alegação que Modi nega. Um tribunal declarou em 2013 que não havia provas suficientes para processá-lo.

Apesar das acusações, Modi acabou unindo seu país com uma promessa de progresso e a visão de uma Índia forte e repleta de oportunidades econômicas.

"É nossa responsabilidade levar todo mundo para frente", disse Modi num discurso. Ele prometeu um governo livre de benesses e comprometido com a inclusão social.

A impaciência da população indiana vem aumentando à medida que a economia perde força. Depois de ter acelerado entre 2003 de 2011, o crescimento atingiu seu menor índice em dez anos, em 2013, e a economia está patinando este ano. Alegações de corrupção agravaram a frustração pública. Uma pesquisa recente do Centro de Pesquisas Pew mostrou que 70% dos indianos estão descontentes com a economia.

A Índia é mais pobre e menos industrializada que seus vizinhos na Ásia Oriental, o que gera em seus cidadãos um sentimento cada vez maior de estar ficando para trás. Muitas carências alimentam esta insatisfação: metade das residências não tem banheiro, muitas não estão conectadas à rede elétrica e o acesso a escolas e bons empregos é difícil.

"Levar energia, estradas e água para cada casa não pode ser uma tarefa tão hercúlea assim", diz Ashish Anant, que tem 24 anos e trabalha como consultor de administração em Nova Delhi, acrescentando que votou em Modi porque "ele faz".

Uma Índia governada por Modi abandonaria a dependência de programas de subsídios aos pobres e tentaria fazer da criação de empregos e do crescimento econômico as ferramentas principais do desenvolvimento. Mas esse afastamento dos programas de esquerda não significa que eles vão acabar. Modi não deve reduzir substancialmente nenhum dos programas de subsídios de que milhões de pessoas dependem para obter trabalho e alimentos. Ainda assim, é quase certo que o governo deixará de priorizar a rede de segurança social em favor de estímulos ao crescimento das empresas e da agilização da lenta e corrupta burocracia estatal.

Durante o governo do Partido do Congresso, alguns dos maiores projetos industriais da Índia foram paralisados. O projeto de uma siderúrgica de US$ 12 bilhões proposto pela sul-coreana Posco foi suspenso diante da oposição de moradores das áreas florestais, ainda que as licenças ambientais já tivessem sido concedidas. Teria sido o maior investimento estrangeiro direto no país. A mineradora londrina Vedanta Resources também cancelou planos para uma mina de bauxita depois que comunidades locais foram contra.

Em geral, o governo atual se mostrou incapaz de negociar soluções de consenso, o que atrasou projetos industriais e de infraestrutura vitais para o crescimento da Índia. Em 2010, enquanto o país penava para atender suas amplas necessidades de infraestrutura, o Ministério do Aço estimou que projetos siderúrgicos no valor de mais de US$ 80 bilhões foram adiados devido a dificuldades com a aquisição de terras e licenças ambientais.

Por outro lado, o governo de Gujarat, sob o comando de Modi, pareceu ser capaz de contornar a burocracia e permitir a instalação e expansão de fábricas.

A canadense Bombardier, que ganhou um contrato de US$ 650 milhões para fabricar vagões para a nova rede de metrô de Nova Delhi, decidiu instalar sua fábrica num parque industrial de Gujarat depois de avaliar diversas opções. O projeto da fábrica foi um dos mais rápidos na história da empresa, disse um executivo da Bombardier na Índia.

Impostos são outro problema. A telefônica britânica Vodafone está há anos às voltas com uma disputa com o governo indiano em torno de US$ 2 bilhões em impostos. AT&T, SABMiller e Nokia são outras grandes firmas brigando com o governo por causa de impostos.

Modi e o BJP se apresentam como pró-mercado, mas isso tem que ser interpretado no contexto indiano. Analistas acreditam que reformas de impacto, como mudar as leis trabalhistas ou a privatização de grandes estatais, são improváveis. O BJP se opõe, por exemplo, ao investimento estrangeiro no varejo de larga escala. Uma porta-voz do BJP disse: "Não vamos abrir as comportas imediatamente."

Fonte: Valor Econômico - publicado em 19/05/2014 (Colaboraram Raymond Zhong, Niharika Mandhana e Aditi Malhotra.)


BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS