Chen, de 38 anos, aposta que as reformas avançarão, vencendo a resistência de parte da burocracia estatal que se opõe às mudanças, que visam ampliar o papel das forças de mercado na economia.

Ele afirma isso com a autoridade de diretor da unidade de pesquisa do Departamento de Pesquisa Macroeconômica do Centro de Pesquisa para Desenvolvimento (DRC, na sigla em inglês) do Conselho de Estado. O DRC é uma agência estatal para a formulação de políticas públicas para o Comitê Central do Partido Comunista e para o Conselho de Estado, que é o principal órgão governamental chinês.

Chen veio ao Brasil para participar do seminário "Armadilha da Renda Média: Visões do Brasil e da China", promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) e pelo Instituto de Estudos da América Latina da Academia de Ciências Sociais da China (Ilas/Cass), que acontece hoje no Rio de Janeiro. O seminário faz parte da programação de lançamento de um livro que tem o mesmo nome, escrito por pesquisadores dos dois países.

A armadilha da renda média é uma teoria segundo a qual um país pode conseguir escapar da pobreza com relativa velocidade, elevando a renda per capita anual até uma faixa em torno de US$ 12 mil. Mas, a partir daí, atola e fica preso nesse nível, geralmente porque a indústria começa a perder competitividade, pelo aumento dos salários, e não consegue compensar isso com ganhos de produtividade e inovações tecnológicas. Leia a seguir trechos da entrevista concedida ao Valor.

Valor: O que a China pode fazer para tentar evitar cair na armadilha da renda média?

Chen Changsheng: A China está passando por um momento de três grandes transformações: econômica, social e nas suas relações internacionais. O maior desafio para a transformação econômica é como se tornar uma economia que tenha mais inovação tecnológica e que possa se sustentar por si mesma, diminuindo a dependência de outras economias. Na questão da inovação, as forças do governo são muito tradicionais, não existe motivação para fazer mudanças. Já as empresas privadas são muito mais propensas a buscar a inovação. E para isso é preciso também promover a abertura do mercado chinês, porque a China precisa participar do sistema global de inovação. A China precisa abandonar aos poucos esse modelo de controle das empresas pelo governo. O governo não vai administrar diretamente as estatais, mas ainda vai controlar o capital delas.

Valor: O DRC recomendou recentemente o fim do monopólio estatal em vários setores. Que prejuízos esses monopólios estão trazendo para a economia chinesa?

Chen: O maior deles é a baixa eficiência das empresas. Há também o problema de que, em vários setores, os preços são relativamente altos. Por isso, houve a necessidade dessa recente reforma. Ferrovias, petróleo e telecomunicações são setores que já estão passando por modificações com o objetivo de encerrar o monopólio estatal. Essas mudanças serão graduais, por etapas, até 2020. No início de 2014, o governo divulgará mais um documento, com detalhes das medidas a serem adotadas.

Valor: Quais são os obstáculos à implementação das reformas? Outros líderes já falaram da necessidade de mudanças e pouco foi feito.

Chen: Em qualquer país, a introdução de reformas traz prejuízos para certos grupos. Mas essas reformas são inevitáveis. Para o Ocidente, parece que a China atravessou bem a crise global de 2008. Mas houve muitos problemas internos. Foi essa crise que provocou as reformas. Muitos acham que as políticas velhas são boas o suficiente, já que funcionavam antes. Mas essa crise mostrou que há muitos problemas internos que precisam ser resolvidos.

Valor: Pode-se esperar um fortalecimento das instituições democráticas na China à medida que o país tenta escapar dessa armadilha da renda média?

Chen: Não acho que exista muita relação entre democracia e crescimento econômico. Há outros países asiáticos que têm democracia, mas não têm crescimento muito forte. O governo chinês nunca se negou a discutir esse tema [da falta de democracia]. Mas, para uma boa compreensão da questão, é preciso levar em conta que há um entendimento diferente para ocidentais e orientais. Os ocidentais tendem a pensar que tudo se resume à existência de eleições. Mas, na China, há uma forte participação da sociedade, há uma democracia interna.

Valor: A urbanização que vem ocorrendo ameaça aumentar a pobreza urbana? Isso não poderia elevar o risco de conflitos sociais?

Chen: Para o governo, essa questão é muito importante, porque a proporção da população que vive no campo ainda é muito alta. Olhando para trás, vemos que o processo de urbanização é relativamente bem-sucedido. A urbanização é acompanhada pela criação de empregos na cidade. Nesse aspecto, é um caso diferente do Brasil. Outro ponto que evita a possibilidade de conflitos sociais é que o camponês ainda tem a alternativa de voltar para o campo. Mas há grandes obstáculos a vencer, há 260 milhões de chineses que saíram do campo e ainda não têm a garantia de receber serviços públicos nas cidades.

Valor: Quais são as maiores dificuldades para a mudança do atual modelo de crescimento baseado nas exportações para um modelo baseado no consumo interno?

Chen: A influência das exportações já está sendo reduzida. A diferença entre exportações e importações na balança comercial chinesa já baixou para cerca de 2% do PIB. Já existe uma consciência de que a demanda interna é tão importante quanto a externa. O consumo está crescendo cada vez mais, em média 8% ao ano. Porém, é preciso criar condições para que se possa consumir. Ainda há uma grande diferença de renda das pessoas. É necessário também melhorar as políticas públicas para promover o desenvolvimento da indústria de serviços, especialmente os setores educacional e financeiro. Na China, uma pessoa que queira criar uma escola, um banco, ainda encontra muitos obstáculos.

Valor: Existe uma bolha imobiliária na China neste momento?

Chen: Realmente, existem problemas no setor imobiliário, mas não sei se se pode definir como uma bolha. Nas cidades grandes, os preços dos imóveis são muito altos quando comparados com a renda das pessoas. E nas cidades pequenas a oferta é muito grande. Também há uma grande oferta de crédito para financiamento. Isso pode vir a se tornar um problema sério.

Fonte: Valor Econômico - publicado em 22/11/2013


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