"O empresário brasileiro ainda não percebeu a China como mercado para produtos acabados, como alimento processado, roupas e calçados", diz o diplomata Roberto Abdenur, ex-embaixador brasileiro em Pequim. "Pensamos basicamente em commodities."

A China tornou-se um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil nas últimas décadas. Desde 2002 nossas exportações para lá cresceram de US$ 2,521 bilhões para US$ 46 bilhões, segundo dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). A mesma empolgação contudo não se verificou no investimento direto. O estoque brasileiro na China, incluindo participação em capital chegou a US$ 635 milhões. São aproximadamente 80 as empresas brasileiras que se aventuraram a montar operações produtivas ou centros de serviços no país oriental.

Dados do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC) indicam que entre 2004 e 2010 foram aplicados no país US$ 572,5 milhões, correspondentes a apenas 0,04% do total do capital estrangeiro. Cerca de 80% estão concentrados em 12 províncias e municípios da costa Leste da China, como Jiangsu, Xangai e Pequim. Mais de 90% são joint ventures com parceiroslocais.

Ainda que os atrativos oferecidos ao investimento sejam muitos - benefícios fiscais a setores prioritários, incentivos regionais, uma classe média emergente que deve chegar a 420 milhões de consumidores em 2020, facilidades logísticas para o comércio com a Ásia -, fazer negócios na China é uma operação complexa, com barreiras físicas e culturais. Mas a grande barreira às empresas hoje está no Brasil: o câmbio.

"A economia chinesa diz que o momento ótimo para o investimento estrangeiro, mas a economia brasileira diz o contrário", pondera Larissa Waccholz, diretora do China Desk da consultoria Vallya. "O acesso ao capital é restritivo e somente empresas com bom caixa podem considerar este investimento atualmente."

A opinião é compartilhada por Reinaldo Guang Ruey, sócio responsável pelo China Desk do escritório Tozzini Freire. "Vamos ver muitas empresas buscando exportar para a China, mas não acredito que muitas empresas irão investir para se estabelecer por lá", afirma o advogado. "Investimento no exterior é sempre custoso. Poucas empresas têm caixa, e o câmbio como está encarece tudo."

Nem mesmo a queda do ritmo do crescimento chinês, com anunciados 6,9% para o terceiro trimestre, o menor índice desde 2009, não assusta tanto. "É natural que passem a crescer menos depois de mudar o modelo da economia para atender o consumo doméstico. A classe média já é enorme e vai crescer mais. A China é uma boa opção para as empresas com dinheiro em caixa", opina Abdenur.

"O grande atrativo da China ainda é a competitividade, mesmo que a mão de obra não esteja mais tão barata na região", avalia o embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil China. "A legislação é mais simples, a burocracia e a carga tributária são menores e começam a despontar os mercados das cidades no interior. E é preciso lembrar que 5% de crescimento chinês equivalem aos 14% de 2007", sustenta.

As empresas brasileiras despertaram tarde para a China. A grande base manufatureira instalou-se no país nos anos 1990, quando estrategicamente havia vantagem competitiva para a produção global. Com o crescimento da economia e do poder de compra, o mercado doméstico tornou-se a razão fundamental. Números do Credit Suisse apontam que existem 109 milhões de chineses com renda anual entre US$ 50 mil e US$ 500 mil. "Ainda que nas grandes cidades o mercado de consumo seja competitivo, as cidades de segundo escalão tem muito potencial. São cidades de 10 milhões de habitantes", conta Larissa Waccholz.

Fonte: Valor Econômico - publicado em 30/10/2015


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