A primeira tensão política entre o presidente eleito americano Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping aconteceu antes mesmo de Trump assumir o cargo, no dia 20 de janeiro de 2017. Em resposta ao descaso que o novo presidente tem demonstrado com o aquecimento global, Xi reafirmou, na semana passada em conferência das Nações Unidas no Marrocos, o compromisso chinês em combater o fenômeno em “quaisquer circunstâncias". Na ocasião, diplomatas expressaram temor pela não-ratificação do acordo de Paris.

O temor maior de ambientalistas e políticos mundo afora é que Trump cumpra as promessas de não ratificar o acordo de Paris, firmado em 2015 por 180 países e que tenta brecar o aquecimento global. Está longe de ser o único legado da estratégia asiática de Barack Obama em risco. Os chineses recebem a acensão de Trump ao poder com um misto de excitação e medo. Medo pela imprevisibilidade de seu estilo de liderança, e pelas possíveis dificuldades de manter as relações comerciais até então desenvolvidas. E excitação pelo pragmatismo que o histórico empreendedor de Trump impõe. “Os chineses se identificam com uma política externa focada em negócios e desvinculada a questões políticas particulares”, diz Wang. 

Inimigo número um da China em disputas territoriais pelo leste e sudeste asiático, o Japão teme que Trump cumpra sua promessa eleitoral e passe a prestar um suporte militar menos generoso aos aliados asiáticos, o que pode abrir espaço para maiores conflitos entre Tóquio e Beijing. O custo anual da base americana no Japão é de 5,5 bilhões de dólares. A preocupação com a expansão chinesa na região e com a própria segurança levou o primeiro ministro japonês Shinzo Abe a quebrar o protocolo na última quinta-feira 17 e almoçar com o presidente eleito na Trump Tower em Nova York, antes mesmo de Obama sair do posto.

De modo semelhante, a presidente sul-coreana Park Geun-He já organizou reuniões de emergência com o conselho nacional de segurança, nas quais também tratou das provocações norte-coreanas e expansão do parque nuclear do país comunista. Segundo reporte do grupo Eurasia, a maior consultoria de risco político do mundo, o enfraquecimento dos Estados Unidos, o pivô militar da região, é apontado como um dos desafios mais graves do sistema de alianças americanas desde a sua formação em 1950. Nesse sentido, especialistas acreditam que o governo chinês possa tomar proveito da falta de pressão estratégica para consolidar sua influência regional. “Pode ser mais fácil agora para a China expandir sua influência militar, como já tem ocorrido, mas inicialmente não vejo uma mudança mais radical”, afirma John Holden, reitor associado da Yenching Academy da Universidade de Pequim.

Sem revelar muitos detalhes, ao final do encontro com Trump, o premier japonês afirmou que relações bilaterais exigem confiança e esboçou um otimismo pouco convincente em relação à confiabilidade do líder novaiorquino. Trump, porém, desde que derrotou Clinton, não se pronunciou em relação à sua própria política externa. “O presidente eleito defendeu um corte de gastos com tropas militares no leste asiático para atrair eleitores, mas eu não acredito que ele de fato tenha pensado nas consequências dessa ação”, diz Holden, que há quarenta anos acompanha transições de governos chineses e americanos. Por trás do silêncio, muitos acreditam que as frases polêmicas de Trump não se sustentam no longo prazo. “Tensões podem ocorrer, mas o presidente eleito não vai simplesmente quebrar as relações consolidadas durante décadas com os aliados asiáticos de uma hora pra outra”, diz Zhang Chi, pesquisador da escola de economia da Universidade de Tsinghua, em Pequim.

E a economia?

Durante a campanha, o presidente eleito ameaçou impor taxas de importação de 45% para produtos chineses, como forma de gerar mais empregos para a classe trabalhadora americana, o que daria início a uma guerra de comércio. Realisticamente, no entanto, essa ação não seria benéfica para ninguém, já que o salário do trabalhador chinês tem aumentado ao longo dos anos, o que tem incentivado multinacionais a investir em outros países no Sudeste asiático onde o custo ainda é baixo.

Em Xangai, a capital financeira da China, por exemplo, o salário mínimo mensal aumentou de cerca de 160 dólares em 2010 para 330 dólares em 2016, enquanto o mínimo em Bangladesh e no Vietnã não passa de 70 e 130 dólares mensais, respectivamente, de acordo com o China Labor Bulletin. “As sanções tributárias não vão trazer de volta à América os empregos de colarinho azul, mas vão dificultar o bom relacionamento com a China, que é um fundamental parceiro comercial para os Estados Unidos”, diz Wang Dong, diretor executivo do Institute for China-U.S. People to People Exchange da Universidade de Pequim e secretário geral do Instituto Pangoal, um dos principais think tanks de políticas públicas do país.

A China é o terceiro principal parceiro comercial dos Estados Unidos, atrás do Canadá e do México, ambos membros do NAFTA (que deve ser revisto por Trump). Em 2015, o total de exportações americanas para a China foi de 113 bilhões de dólares. Outra promessa do ex-apresentador do reality show O Aprendiz seria abandonar a Parceria Trans-Pacífica (TPP), acordo de livre comércio firmado entre doze países banhados pelo Oceano Pacífico, que representa um dos maiores esforços da administração de Obama. Na opinião de muitos especialistas, acabar com a TPP é um retrocesso, já que o tratado cria condições transparentes de comércio entre os países, bem como estabelece regulação ambiental e de condições dignas de trabalho. Mas vai saber. “A guerra comercial já existe e acordos como a TPP são necessários para que todos os lados se beneficiem. Abandonar os esforços é abrir ainda mais espaço para que a China se consolide como o principal parceiro desses países em detrimento dos Estados Unidos”, afirma William Zarit, presidente da Câmara Americana de Comércio (AmCham) em Pequim.

Ao criar as barreiras para a China, Trump redirecionaria os investimentos chineses a outros mercados, o que não é de todo ruim para países como o Brasil. A China, vale lembrar, foi responsável por 60% dos investimentos estrangeiros em fusões e aquisições de empresas no Brasil este ano. “Passamos por uma forte crise econômica que não encanta os olhos do investidor, mas as possíveis dificuldades de negociar com os Estados Unidos podem, sim, atrair mais capitais para o Brasil”, diz Larissa Wachholz, sócia-diretora da Vallya, butique de investimentos especialista em relações China-Brasil. Seria um efeito benéfico do novo embate entre as duas maiores economias do planeta. 

Cibele Reschke, de Pequim

Matéria publicada pela Revista Exame em 21/11/16


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